
Enquanto Joana distanciava-se, seu cabelo despenteava-se devagar com o auxílio da alarvada chuva. Tamanho alarve impediu as, anteriormente, imediatas mãos de Arthur de se aproximarem da maçaneta. A visão que tinha de Joana era distorcida, assim como sua própria vontade de ir atrás dela. Sabotando à si mesmo, aproximou-se do vestíbulo e acendeu seu cigarro. “O senhor não pode fumar aqui”, disse um homem precavido, segurando o casaco que lhe custara alguns anos de trabalho e toda a moral. Arthur, após um grande esforço, sorriu amarelo. Livrou-se do próprio cigarro, jogando-o no chão, tão entretido em sua própria loucura que ao reparar na cara que o homem lhe fazia, repetiu o sorriso.
Joana trajava um vestido fácil de ser tirado ou rasgado, como preferia Arthur. A delicadeza da pele de Joana fascinava sua mente doentia, tornando-a ainda mais desejável quando pedia que ele não a machucasse mais. O que era inevitável à sua natureza mórbida. Mas Joana o entendia, tentava convertê-lo, afastar seu lado bestial para que pudessem, sem delongas e encostas amorosas, ficarem juntos.
Arthur pediu que a moça bonita da recepção lhe servisse um café e lhe preparasse o carro. Ela atendeu prontamente o pedido do rapaz que se portava com tamanha elegância e educação que jamais havia ponderado em todos os seus anos vividos. Seu nome era Alice, tinha boas coxas descobertas, procurava os olhos de todos os rapazes e prometia a si mesma que casaria com o olhar que sorrisse ao dela. Ao entregar-lhe o café, Alice perguntou: “O que houve com a moça que estava com o senhor, se me permite perguntar…”
“Saiu na chuva, estragou o vestido que lhe dei e a probabilidade de ser assaltada e violentada são as maiores apostas da noite.”
“E por que o senhor não vai atrás dela?” Alice perguntou assombrada.
“Ora,” Arthur sorriu. “não se preocupe. Eu pegarei um atalho.”
Joana trêmula e pálida aproximava-se de uma avenida com pobre iluminação e cheiro pútrido. Pensava em Arthur e em como os atalhos que ele lhe fornecia eram cada vez mais longínquos, a cada passo que dava. Já havia tirado os sapatos e tinha certeza de que pegaria uma doença naquelas ruas encharcadas. Não sabia, não imaginava se Arthur tinha ido atrás dela e, sinceramente, morria por dentro com a incerteza. Queria que ele a resgatasse pelos tornozelos, que rasgasse seu vestido caro, que a retirasse do caos onde havia ido parar e parasse de atalhá-la. Gostaria também de não senti-lo impedindo-a de continuar caminhando, apesar de não estar segurando-a com a força como segurava-a, era capaz de machucá-la ainda mais. As avenidas a engoliam depressa, o frio prendia entre os dedos gélidos da noite, o casaco não lhe adiantava nada e os olhos apertando-se pela dor daquilo tudo. E o pior é que não conseguia livrar-se de Arthur e dos olhos amendoados pousados em cima de suas coxas assim que a viu pronta para tomar seu braço esquerdo e adentrar os portões algemados da tão esperada festa de ano novo. Depois da meia-noite, quando Joana distanciou-se de seu primórdio nupcial, havia distanciado-se vários caminhos da esquina onde encontraria Arthur, a fumar, esperando-a para erguê-la da bagunça que Fitzgerald e Gatsby haviam metido-os. E ela, não estava a par destes fatos, embora sempre soubesse o que estava acontecendo ao seu redor.
Arthur não apareceria aquela noite. Os atalhos que concedera para Joana não foram apenas por beijar-lhe a mão e sorrir-lhe terno e bem passado nas gravatas. Arthur não apareceu aquela noite por estar gracejando de champanhe e lábios cobertos de batom no vestíbulo. Enquanto Joana fazia companhia à calçada em frente à estação de trem, as mãos de Arthur passeavam pelo corpo descoberto da atriz conhecida por seus cabelos dourados e olhos azuis. Enquanto Joana atalhava sua libertação dos longos cachos de Arthur, o mesmo atalhava o caminho até o grelo descoberto da atriz que afagava seu pênis como se lhe fosse o último que tocaria. Enquanto Joana lamentava sua maquiagem perdida, teus vários vestidos e entradas para teatros e óperas, Arthur colocava as coxas nas coxas magras da atriz que lhe mordia a orelha como se morresse de fome há dias. O que não era o caso… E enquanto Arthur pensava em como atalhar a transa para poder ir atrás de Joana e enfim, ceder-lhe as vontades, Joana apenas pensava em como atalhar sua vida sem Arthur.
“Um atalho é sempre a distância mais longa entre dois pontos.”, Guilherme Hotto.
E quantas de nós não foram atropelados e tropeçaram nos terríveis acasos das Leis de Murphy, enquanto planejavam minuciosamente todos os operários, horários, certezas, apostando cada centavo restante e ausente do bolso e dos olhos, do corpo, da alma para que algo, apenas um único evento não fosse desastroso? Todos nós já fomos pegos de surpresa por esse tipo de situação.
“Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.”
“Não há nada tão ruim que não possa piorar.”
Apenas histórias desse tipo de azar que na verdade é só mais uma ideia da vida.
Em Breve.