Passei vários dias pensando no que escrever pra você. Ou se eu deveria escrever. Creio que para exorcizá-la de mim, o melhor é tentar diminuir meus pensamento acerca de ti ao mínimo. Até que eu esquecesse. Ou até fingir à mim mesmo que havia esquecido todas essas tuas partes que estão ainda aqui comigo. Não sei porque me apeguei tanto à você. Daí me lembro que é por ser essa tão menina-mulher, essa combinação de quem escuta os discos mais improváveis dos séculos antecessores e ainda se espelha em atrizes, apesar de ser tão só em tamanha essência. Eu sei que gostava de imaginá-la aqui ao meu lado. E à noite, quando podíamos conversar às três da manhã, eu assistindo Across The Universe e você me pedindo detalhes do filme que já havia assistido e gostado tanto, eu deixando que o sono me pegasse aos poucos e você com sua insônia de sempre. Gostava. E sei que imaginava-a comigo, aqui, do lado, eu assistindo a poeira cair sobre o seu corpo nu e aquelas suas mechas roxas desbotadas. Naquela época, ainda não existiam aspas em seu corpo-coração. Mas acho que iria adorar vê-las aqui por perto, cruzar meus lábios com os seus e bem. O resto você conhece. Ou não. Mas gostaria que conhecesse.
Eu ando gostando de tudo que já passou e talvez isso não seja bom para nós. Para nós ou para qualquer outro que esteja sentindo saudades de alguém. Mas eu vim dizer, escrever essa carta, como mais um modo de despedida do que de desculpa. Já me desculpei demais e se me perdoas ou não, não é mais o meu propósito. Eu mesmo pretendo te odiar ou apenas não nutrir nenhum sentimento bom por você. Ou apenas não nutrir nenhum. Só, Joana, não me deixa viver em cima desse nosso reencontro. Não me deixa achar que ainda se importa, que ainda posso lutar por você, que um dia tudo voltará a ser como antes. Sei que fiz o mesmo contigo e essas cartas talvez seja um desses hábitos antigos meus de te fazer de boba. Mas se você achar assim, ache… Eu apenas quero te dizer que não quero ter mais nada a dizer pra você.
“Ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. Avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. E não darei. Não é mais possível. Não vou me alimentar de ilusões. Prefiro reconhecer com o máximo de tranqüilidade possível que estou só do que ficar a mercê de visitas adiadas, encontros transferidos.” (Caio Fernando Abreu)
Com amor,
Palerme.
“Ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. Avisei que não...